CNV – Comunicação Não-Violenta: A difícil arte da escuta

Posso te dar um conselho? Se eu fosse você…
Quem nunca ouviu essas expressões numa situação de conversa provavelmente vive em outra sociedade, muito diferente da nossa. Um grande exercício de comunicação interpessoal é conter o impulso condicionado de aconselhar o outro e estar livre para o exercício da escuta.

Pode soar estranho num primeiro momento essa advertência. Geralmente, associamos o ato de aconselhar o outro a um movimento de generosidade e empatia. Temos urgência em tirar o outro do seu sofrimento. Mas aqui vale o velho ditado de que se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia.

Tem quem venda conselhos. São profissionais como advogados, médicos, engenheiros com competência técnica em determinado campo de conhecimentos. Esses são capacitados para fornecer orientação. E é muito bom pode contar com esse auxílio. Mas o grande desafio é sair do automatismo de transformar todas as conversas num balcão de oferta de palpites na vida alheia e apenas se colocar presente e disponível para amparar o outro nos seus desafios.

Lei do equilíbrio

Numa cultura de hiper individualização e com pouca tradição de debate, não ser ouvido parece ser um diagnóstico generalizado e espontâneo, segundo o psicanalista Christian Dunker. Responder o outro a partir de mim, pressupondo que um sabe e o outro está demandando, é um modelo de escuta colonizadora influenciada pelo modelo de trocas econômicas. Um formato que cristaliza relações de poder verticais.

Segundo o psicólogo Bert Hellinger, criador das abordagens de constelação familiar, em todos os relacionamentos, necessidades fundamentais atuam para manutenção de trocas harmoniosas. Uma delas é a lei sistêmica do equilíbrio entre o dar e receber. Quando aconselhamos alguém, estabelecemos uma relação de poder, pressupondo que conhecemos soluções que a outra pessoa desconhece. Negamos ao outro a capacidade de autocuidado, autonomia e criatividade.

“A culpa é sentida como dívida ou obrigação, quando se rompe o equilíbrio entre o dar e receber”, afirma Hellinger. Nós nos sentimos credores quando damos. E sentimo-nos devedores quando recebemos sem equivalência. É nesse lugar de devedor sem nenhuma autonomia que não queremos estar quando desabafamos com alguém e prontamente somos aconselhados.

A tarefa da escuta é suportar a incerteza, sair da binariedade do certo e errado e renunciar à posição de poder, segundo Dunker. Sair de si e entregar-se para o lugar do não saber são os primeiros passos da escuta transformativa.

Experiência compartilhada

A necessidade de refletir sobre esse tema surgiu em uma semana que eu estava precisando desabafar sobre situações que vinham me perturbando. Ao compartilhar tais fatos com amigos, percebi a grande quantidade de conselhos recebidos e alguns julgamentos sobre minhas dificuldades. Ficou evidente como essas conversas aumentaram minha confusão interna.

Naquele momento, eu não estava pronta para avaliar se os conselhos eram de fato bons para mim. E não tinha intenção de colocar em prática nenhum deles. Eu só queria mesmo companhia para colocar em ordem meus sentimentos e valores. Depois dessas conversas trágicas, sobrou uma enorme sensação de paralisia e incapacidade.

Compartilhei meu incômodo no meu perfil no Facebook para uma mini pesquisa informal. Estava curiosa para saber se essa dificuldade era compartilhada por mais pessoas e quais estratégias elas adotavam quando não conseguiam ser ouvidas.

Como não perder a conexão quando eu quero uma escuta para desabafar e recebo um conselho? Percebo o quanto me sinto frustrada quando estou num movimento de me abrir com um amigo e prontamente perco meu espaço de expressão quando recebo de volta um julgamento daquilo que exponho ou um conselho determinante do que devo ou não fazer. E vocês? Também sentem esse incômodo? Como se comportam nesse caso?

As respostas que recebi não representam uma amostra significativa sobre esse sintoma social da falta da escuta, mas aliviaram um pouco o meu sentimento de solidão por não conseguir atender a minha necessidade de escuta e conexão, naquele momento. Selecionei algumas estratégias apontadas pelas pessoas que comentaram a minha publicação e trechos dos seus comentários sobre como se comportam quando não conseguem ser ouvidas:

– demonstrar descontentamento com os conselhos recebidos;

Eu tenho reações diversas. Saio de perto com cara de bunda. Tenho momentos de ira (principalmente com o meu marido). Ou respiro fundo e penso porque é tão difícil para as pessoas irem além do óbvio. É um momento de limpeza e depuração, mas não melhora.

– deixar claro que objetivo da conversa é uma escuta;

Eu diria que você deve começar a conversa dizendo: por favor só me escuta, não quero conselhos, tampouco julgamentos. Uma orelha é o que está me bastando hoje. Tudo bem? É difícil numa conversa, onde não fica claro que é só um desabafo, conter nossa reação em prontamente querer ajudar com uma solução prontinha. Acho que na maioria funciona assim. Nem é por mal. Se pensar bem, até você já agiu assim. Por isso é importante dizer o que quer. Não esperar que o façam por que não vai rolar.

– buscar outro ouvinte;

Muda o ouvinte. Escutar é hábito. Atualmente, algumas pessoas “ouvem” querendo dar respostas. Elas não fazem por mal.

– buscar clareza internamente através da meditação e da escrita;

Eu diria para você silenciar. Meditar mesmo. Catar um bloquinho (nada de textão no Face) e escreve. Depois você vê se ainda tem a necessidade de verbalizar!

– buscar escuta através de um profissional como um psicólogo, e

Eu iria a um profissional (psicólogo). Na verdade, não tenho necessidade de compartilhar minhas angústias. Ou nem tenho tantas angústias assim. Mas eu ouço o conselho. Ajuda também.

– calar-se.

Acho que desisti!. Ou talvez não saiba mais comunicar de forma correta a minha necessidade. Quando vi o seu post, percebi o quanto estou cada vez mais parando de falar. Isso se deu por dois motivos: falta de atenção e conselhos e orientações que acreditavam ser o correto para mim.

Todas essas estratégias ressoaram em mim. Percebi que já fiz e faço uso de todas elas. Exponho a pessoas que são importantes para mim a angústia que me causa o excesso de conselhos não solicitados que elas me dão. Busco cada vez mais apoio de escuta qualificada nos pares empáticos* que estabeleci nas minhas vivências de comunicação não-violenta. Recorro à psicanálise há algum tempo, embora não acredite que ela substitua as trocas humanas espontâneas e permeadas pelo afeto. E percebo que toda vez que me calei, adoeci o corpo ou transbordei através da raiva.

Esse exercício também me fez ficar alerta para os meus vícios quando escuto. Por mais que venha praticando ser uma melhor ouvinte, tenho também um “Galvão Bueno” interno (apelido carinhoso que dei ao meu diálogo interno mental, sugestão da Fabiana Maia) que narra sugestões geniais para eu dar ao meu interlocutor. Ainda mais, quando tenho qualquer tipo de afeto por quem fala, a urgência em tirar o outro do seu sofrimento pode ser maior que a presença na escuta.

Da mesma forma, várias pessoas que interagiram comigo também lembraram que todos nós estamos condicionados a aconselhar e julgar, durante um diálogo. Várias reconheceram em si mesmas essa estratégia trágica. Esse processo de espelhamento — reconhecer em mim a falha que me incomoda no outro — gera um fluxo de compaixão em relação ao outro e auto compaixão que abre espaços para novos modos de conexão humana.

Fluxo

A jornalista, escritora e documentarista brasileira Eliane Brum é uma das profissionais mais premiadas e reconhecidas na imprensa brasileira. Sua capacidade de estabelecer relações profundas de empatia com seus entrevistados traduz-se em retratos humanos complexos e profundos. Brum resume seus mecanismos de escuta a seguir:

Escutar é estar aberto para o espanto, é estar aberto para se surpreender. É tu te despir. Eu acho que cada reportagem, cada entrevista te exige isso: é tu te despir daquilo que tu é, dos teus preconceitos, da tua visão de mundo e chegar o mais vazia para aquele momento e conseguir realmente escutar com todos os sentidos o que aquela pessoa está dizendo. Então, eu tenho todo o tempo do mundo, sempre, mesmo que depois tenha que virar a noite escrevendo, se for o caso.
Eliane Brum, jornalista

Comunicação é um fluxo. É como o surfista que se entrega à onda, estabelecer diálogos profundos é completa entrega às ondas, marolas e maremotos do interlocutor. Se olharmos pelas lentes da comunicação não-violenta, cujo referencial teórico-prático foi criado pelo psicólogo norte-americanos, Marshall Rosenberg, três elementos são fundamentais para exercer a escuta empática:

Presença: empatia é estar com o outro, observar o mundo o mais próximo possível do lugar onde seu interlocutor se encontra. Para isso, é preciso desligar nosso diálogo interno que pode insistir em tentar criar soluções para o outro ou julgar suas ações. Quando começamos mentalmente a procurar caminhos para aconselhar, desconectamos a presença naquilo que está sendo dito.

Atenção: o foco da comunicação não-violenta é identificar sentimentos e necessidades suspendendo os julgamentos. É um exercício de investigação do discurso do outro para que ele tome consciência do seu cenário interno.

Invés de roubar o protagonismo de quem fala com o velho “se eu fosse você”, adotamos a expressão “eu ouvi você dizer que está se sentindo….” ou “você está me dizendo que é importante para você…”. Nesse jogo de dar “chutes empáticos” sobre o que escuto, ofereço clareza a quem fala.

Intenção: na comunicação não-violenta, somos descondicionados a acreditar que toda interação com outro ser humano tem a finalidade de resolver um problema. A intenção é que cada um torne-se responsável pelos seus sentimentos e necessidades. Quem escuta cria suporte para revelar o que está vivo no discurso do outro. A partir dessa escuta transformativa, quem fala reconhece suas potências e vulnerabilidades, quem ouve apreende a humanidade de quem está oferecendo seus conteúdos internos.

Conselho de amigo

Quem leu até aqui pode estar se perguntando: mas e o velho e bom conselho? Claro que segue valendo a troca nesse sentido, sempre que explicitamente solicitado. Dar conselho quando pedido é um espaço de atenção ao seu interlocutor. Naquele momento, alguém está se vulnerabilizando e expressando sua necessidade de maior clareza.

É delicioso poder ouvir uma orientação de alguém que confiamos, quando estamos prontos para isso. Quem aconselha deve honrar a confiança e deixar claro que o conselho é apenas um ponto de vista, uma das múltiplas estratégias que a outra pessoa pode adotar.

Então, se o leitor me permite, aqui vou deixar um conselho. Numa conversa, ao ouvir, apenas relaxe. Esqueça o que você pode ensinar a quem fala e aproveite a grande oportunidade de conhecer outro ser humano que confia na sua escuta. Permita-se desligar de si e chegar o mais perto possível do outro. Fazer esse salto imaginativo certamente torna todas as trocas humanas muito mais interessantes e a vida muito mais rica.

O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.
Rubem Alves, educador e escritor

*par empático — são pessoas com alguma vivência em comunicação não-violenta que estabelecem uma frequência de troca escutas. A finalidade é obter auxílio para auto investigação do próprio discurso. A dupla troca suporte para reconhecer os seus sentimentos e necessidades atendidas ou não atendidas.

Essa é uma reflexão em construção. Por favor, comente como o texto te impactou e as suas impressões para construirmos juntos novos futuros desejáveis para comunicação humana. Quer saber mais sobre comunicação não-violenta? Eu acredito e promovo cada vez mais essa prática. Você pode me seguir pelas mídias sociais e acompanhar o que estou fazendo. Ou me escreve que eu vou gostar muito mais!!

 

Produzido por:

Juliana Maroto

Facilitadora de Comunicação Não-Violenta, com experiência em Yoga e Meditação, Juliana é formada em Jornalismo pela PUCSP, Pós-Graduada em Comunicação Científica pela UNICAMP e Gestão de Tecnologias de Controle do Meio Ambiente pela FAAP e estuda temas como: Autoconhecimento, Liderança, Gestão de Conflitos e Práticas como Yoga do Riso, Yoga dos Bichos e Teatro de Improviso.

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